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Você pode até pensar que se trata de mais uma sugestão de dieta propagada pelas celebridades de barriga chapada. E nem seria novidade, já que a fama das proteínas como construtoras de músculos é antiga. Mesmo. Reza a lenda que o lutador grego Milo, de Crotona, costumava comer cerca de 10 quilos de carne – alimento lotado do nutriente – de uma tacada só. O resultado, segundo consta, passou longe de uma indisposição: Milo foi campeão olímpico por seis anos, ganhando, assim, o status de maior atleta da Antiguidade. Acontece que, na época, não era exatamente comum praticar carnivorismo. Então, a carne e as proteínas ali contidas foram associadas ao sucesso de Milo, tornando-se símbolos de um corpo atlético. Mas uma nova linha de pesquisa mostra que acontece muito mais no ínterim entre a digestão desses nutrientes e sua utilização nos tecidos musculares. Sem falar que há proteínas valiosas em outros alimentos, inclusive nos de origem vegetal. E suas funções vão desde baixar a pressão e controlar o diabete até proteger conta o câncer.

 

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É natural que não se tenha noção dos vários papéis da proteína, tampouco de sua relevância. Afinal, elas alcançaram posição de destaque recentemente, quando dietas baseadas em seu consumo elevado viraram sinônimo de fórmula certeira para enxugar os pneus. “Em comparação aos demais macronutrientes, ou seja, carboidratos e gorduras, as proteínas de fato exigem uma queima calórica maior durante a digestão”, afirma a nutricionista Patrícia Villas-Bôas de Andrade, da faculdade de Medicina de Petrópolis, no Rio de Janeiro. “ Contudo, esse gasto extra é muito discreto. Não chega a fazer a diferença na perda de peso”, garante Antonio Herbert Lancha Junior, coordenador de Laboratório de Nutrição e Metabolismo Aplicado à Atividade Motora da Universidade de são Paulo (USP).

Um segundo argumento usado pelos entusiastas de cardápios abarrotados de proteínas é que a sensação de saciedade duradoura contribuiria para o emagrecimento. É verdade: esse grupo de nutrientes faz a barriga parecer cheia por mais tempo. Só que o empanturramento cobra um preço. Acompanhe o raciocínio: quem aposta em fontes proteicas gordurosas, como carnes vermelhas, queijos amarelos e afins, também tem a digestão mais lenta. A combinação submete o organismo a um longo jejum – é aí que o tiro sai pela culatra. “” Nesse contexto, o corpo se vê estimulado a economizar energia. Então, passa a formar mais gordura ”, explica Lancha Júnior.

A lista de poréns continua. As tabela2dietas das proteínas costumam recomendar um consumo baixíssimo de carboidratos, com a alegação de que eles favorecem a liberação de insulina, hormônio ligado ao acúmulo de gordura pelo corpo. “ Acontece que o excesso de qualquer macronutriente acarreta esse efeito”, esclarece a nutricionista Tânia Rodrigues, da RGNutri Consultoria Nutricional, na capital paulista.

Fora que, para tirar proveito daquela função básica das proteínas – isto é, fornecer aminoácidos para a construção de músculos -, a presença de carboidratos se faz  essencial. “ Na falta deles para o fornecimento de glicose e produção de energia, o corpo acaba recrutando os aminoácidos provenientes das proteínas”, conta Lancha Júnior.  “Dessa maneira, em vez de serem usados para a síntese proteica no tecido muscular, eles são destinados para a manutenção da glicemia”, conclui. E, de novo, o tiro sai pela culatra.

Ao contrário dos carboidratos e das gorduras, as proteínas não são estocadas pelo corpo, portanto precisamos mesmo consumi-las regularmente. Mas, até por não fazermos reservas delas, o abuso tem sido encarado como um patrocinador de sobrecarga renal – mais um motivo para ficar esperto. “É que entre os produtos finais da quebra desse grupo de nutrientes estão a amônia e a ureia, substâncias filtradas pelos rins”, explica a nutricionista Karina Valentim, da PB Consultoria em Nutrição, em são Paulo. Por isso, o recado é respeitar as porções diárias propostas para cada faixa etária – só quem for muito ativo, pelo bem da reparação dos músculos, pode exceder a recomendação. E saiba: chegar a esses patamares não é um grande problema para os brasileiros. Segundo levantamento recente sobre nossa alimentação, comemos mais proteínas do que o necessário. Agora, escolher as melhores fontes proteicas, isso sim, é um desafio.

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                 O exagero do brasileiro não vem só pelo consumo de carnes, leites e ovos. “ Hoje em dia, a quantidade de derivados de trigo que consumimos já seria o suficiente para nos fornecer os valores adequados desse nutriente”, revela o bioquímico José Arêas, do Departamento de Nutrição da Faculdade de saúde Pública da USP. Mas, ao contrário do cereal, a carne concentra proteínas conhecidas como de alto valor biológico. “ Isso significa que essas proteínas carregam os aminoácidos essenciais que o corpo, sozinho, não consegue produzir.”, traduz a nutricionista Ana Carolina Conti e Silva, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual Paulista, a Unesp.

A notícia importante é que as proteínas deixaram de ser vistas como uma estrutura responsável somente por nos prover os tais aminoácidos livres, para mais tarde serem utilizados pelas células. “ Esse é um conceito da nutrição clássica que precisava ser revisto”, declara o cientista de alimentos Jaime Amaya-Farfan, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. “De uns anos pra cá, ficou claro que, quando ingerimos as proteínas alimentares, elas não são digeridas totalmente, liberando apenas os tais aminoácidos. Acabam sobrando, no meio do caminho, alguns fragmentos formados por essas moléculas”, ensina. E descobriu-se que esses bloquinhos de dois, três, quatro ou mais aminoácidos interligados podem exercer uma série de ações excepcionais em nosso corpo. Eles foram batizados, então, de peptídeos bioativos.

Um dos primeiros alimentos analisados sob essa ótica foi o leite. Mais especificamente a caseína, proteína da bebida. “Determinados peptídeos derivados dela são opiáceos. E uma de suas ações é conter diarreias graves”, conta Arêas. Um efeito vantajoso, visto que os bebês e as crianças, grupos bastante vulneráveis a encrencas intestinais, estão entre os grandes consumidores de leite. Para os mais pequeninos, esse não seria o único ganho ao sorver o líquido. “ A caseína gera peptídeos denominados casorfinas, que transmitem uma sensação de relaxamento e plenitude”, acrescenta Amaya-Farfan. Daí a impressão de que, após mamarem, os bebês parecem, digamos, dopados.

Já as habilidades da proteína do soro do leite, encontrada em altas doses no queijo ricota ( e chamada pro aí de whey protein), são mais interessantes para a turma que precisa afastar ou controlar a diabetes. Isso porque, os projetos de pesquisa coordenados por Amaya-Farfan na Unicamp, essa proteína hidrolisada (traduzindo: parcialmente quebrada) propiciou a formação de peptídeos bioativos que aumentam a captação de glicose pela célula. Quando esse aproveitamento é facilitado e a glicose não sobra na circulação, o diabete se torna pesadelo distante. O pesquisador lembra que outro jeito eficiente de fazer a insulina trabalhar com afinco, e, assim, tirar o açúcar excedente da reta, é estimular a prática de atividades físicas. “Só que uma pessoa obesa, com problemas articuladores, não pode ser forçada a realizar exercícios intensos”, lembra Amaya-Farfan. “Logo, apostar na proteína do soro do leite seria uma alternativa mais viável para conter a glicose desse pessoal”, conclui. Quem deve domar a hipertensão também sairia ganhando ao investir nesse item, já que seus peptídeos têm a competência de inibir a ação de uma enzima intimamente envolvida na subida da pressão arterial. Assim, coração e cérebro ficariam livres de enrascadas.

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Digestão sem solavancos

De acordo com a nutricionista Tânia Rodrigues, as proteínas de alto valor biológico, como as animais, são digeridas com facilidade porque apresentam os tais aminoácidos essenciais. “Eles são mais bem absorvidos pelo trato gastrointestinal”, diz. Ainda não está claro se esse fator interfere na formação de peptídeos bioativos.

E não é só no reino animal e seus derivados que se escondem proteínas favoráveis à manutenção da saúde. “Já indicamos, em estudos com cobaias, que as proteínas dessa leguminosa, principalmente as definidas como 7S e 11S, têm papel importante na redução de colesterol”, informa a bioquímica Aureluce Demonte, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP. “ Um dos nossos objetivos atuais é conhecer os peptídeos que fazem parte dessa estrutura proteica”, adianta a bioquímica.

Nem precisa esperar para colocar o grão no prato. Assim como as proteínas do leite, as de soja têm várias cartas na manga. Veja só: um peptídeo derivado de sua digestão, nomeado lunasina, apresenta propriedade anticâncer comprovada. A Leguminosa ainda dá origem a peptídeos que ajudam a diminuir a pressão arterial, deixam o sistema imunológico afiado... Definitivamente, um prato cheio para a saúde.

Quem não fica muito atrás é o amaranto. No laboratório do bioquímico Arêas, na USP, essa é a semente da vez. “Verificamos que ele baixa o colesterol de um modo muito efetivo”, relata o pesquisador. Para encontrar a substância responsável pelo feito, Arêas isolou fibras, vitaminas E e A, proteínas e... Bingo! As últimas ficaram com ou louros pelo benefício. “Percebemos que as proteínas do amaranto inibem uma enzima cuja sigla é HMG-CoA”, descreve Arêas. Essa molécula tem uma função tão chatinha quanto seu nome: ela ajuda a formar o colesterol. “Em cobaias, as taxas chegaram a um ponto de normalidade após aproximadamente duas semanas de consumo do amaranto”, conta.

Na luta contra essa chateação, há mais dois combatentes de peso: o tremoço e o feijão-caupi (ou fraudinho). Tudo por causa de suas proteínas, é claro. No caso da leguminosa preferida dos nordestinos, a façanha foi até confirmada em gente de carne e osso. Em sua tese de doutorado pela Faculdade de Saúde Pública da USP, a nutricionista Karoline Frota viu que os níveis de colesterol total e LDL – aquele que ameaça pra valer as artérias – despencaram entre os indivíduos que receberam a proteína isolada do feijão-caupi. “Uma das hipóteses para explicar o resultado é que os peptídeos bioativos gerados por esse nutriente aumentaram a formação de ácido biliar, o que requer a retirada de colesterol da circulação”, especula Karoline, professora na Universidade Federal do Piauí. Outra possibilidade é que esses peptídeos impediriam a produção de colesterol no fígado mesmo. Enquanto o mecanismo permanece um mistério, uma coisa está certa: o consumo do grão teria que ser elevado para chegar à porção de proteína usada no projeto, equivalente a cerca de seis conchas diárias.

E, ainda que essa quantidade coubesse na alimentação diária, não dá para cravar que o efeito seria idêntico ao da experiência. “Dentro do alimento, a proteína vem acompanhada de gorduras, carboidratos... Tudo isso altera a digestão e pode dificultar o acesso aos peptídeos”, explica Karoline. Consumi-lo, portanto, pode não ser tão impactante quanto tirar proveito somente das proteínas isoladas. Não é que as vantagens seriam nulas – longe disso. Mais : é cedo para garantir que a digestão dessas proteínas seguirá um padrão em todas as pessoas, culminando nos mesmos peptídeos bioativos. São questões que a ciência, a seu tempo, se encarregará de responder. O principal aprendizado, enquanto engatinhamos nessa seara, é que as proteínas fazem muito mais do que construir músculos. E alimentos diversos, não só a carne, podem oferecê-las. Se Milo soubesse disso, quem sabe a sétima Olimpíada (que ele perdeu) não estaria no papo?

 

proteinaE os suplementos?

Eles ficaram malvistos porque muita gente os associa aos temidos anabolizantes. Mas são úteis em diversas situações. O de creatina, um derivado de aminoácido, por exemplo, pode evitar que idosos percam massa muscular. “Ela permite que o indivíduo faça atividade de força por mais tempo”, elucida Lancha Júnior, da USP. Antes de recorrer a esses produtos, porém, procure um médico ou nutricionista.

 

 Fonte: Revista Pense Leve

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